Meu depoimento é sobre a morte do meu avô, M.M.C., ele faleceu por sepse.

Meu avô tinha 79 quando faleceu, ele era diabético então fazia parte do grupo de risco para o desenvolvimento da sepse, mas seu quadro começou de forma simples. Meu avô  teve, o que se acredita, uma virose simples com vômitos e diarreia. Os sintomas começaram no domingo de tarde e por volta das 00:00h ele foi internado em um hospital particular de campinas. Foi admitido na emergência e por ser idoso ficou em observação. Na segunda-feira de tarde, dia 20/01/2014, eu fui visita-lo, ele estava aparentemente bem e pedia pra ir embora, como não tinha ninguém pra ficar com ele durante a noite eu me dispus a acompanha-lo, ele era um pai pra mim.

Passei a última noite com ele acordado, durante a madrugada ele reclamou muito de dor nas costas, ele dizia “filha passaram essa sonda (sonda nasal) no meu pulmão” e eu falava pra ele que não tinha como. Mas eu decidi ir conversar com a enfermeira chefe, responsável do turno, e relatar as dores que meu avô estava sentindo, ela foi até o quarto olhou ele por cima, me chamou e disse que meu avô estava com dor nas costas, porque ele era idoso e tinha passado muito tempo deitado. Nem por um momento a reclamação dele foi levada em consideração, ele estava dentro de um hospital e não foi pedido nem um exame.

O que saberíamos no dia seguinte é que as dores relatadas pelo meu avô eram derivadas de uma pneumonia, ele havia broncoaspirado o vômito, levando bactérias para o pulmão, que causaram a infecção. No dia seguinte ele acordou, tomou café, estava feliz porque o médico passou e disse que ia dar alta pra ele, eu fui embora as 08:30, me despedi e disse que em breve nos veríamos. As 12:00h ele teve uma parada respiratória, devido a pneumonia, foi levado para a UTI, no dia 21/01/2014. Após sua internação na UTI o quadro só se agravou, Vieram as manifestações da sepse, a disfunção dos órgãos e no sábado, dia 25/01/2014, ele veio a óbito.

Veio a óbito pela sepse sim, mas principalmente por negligência humana, negligência de todos os profissionais envolvidos que não se atentaram aos sintomas, que não estavam e não estão preparados para diagnosticar a sepse em seus sintomas iniciais. Além da dor de perder alguém que amamos, o sentimento de frustração e revolta ao saber que talvez, se alguém tivesse notado, se alguém tivesse pesquisado, se tivessem diagnosticado a tempo. É complicado, mas eu transformei essa dor em curiosidade, peguei o atestado de óbito do meu avô, e não constava sepse, mas uma prima médica que acompanhou o caso, relatou a família que a causa era SEPSE. Então parti para o histórico médico dele, acredito que continha aproximadamente umas 2000 sulfites impressas com tudo que aconteceu nos 5 dias que meu avô esteve internado, todos os procedimentos, todos os medicamentos, tudo.

Eu dei uma olhada superficial para tentar encontrar os agentes infecciosos causadores da sepse, mas lá não continha essa informação, além de constar como causa de morte infarto do miocárdio, o que não é verdade já que os órgãos do meu avô foram parando um a um. Talvez o último acontecimento possa ter sido o infarto, mas a causa foi a SEPSE.

Eu faço biologia na PUC-Campinas, estou no ultimo ano e desde que meu avô morreu eu fiquei com a ideia de desenvolver meu TCC (Trabalho de conclusão de curso) relacionado a SEPSE. E então na escolha do tema no final do ano passado eu decidi falar sobre a resposta imunológica na SEPSE, desencadeada pelo agente infeccioso Staphylococcus aureus, que eu havia estudado ser uma bactéria causadora de muitas infecções hospitalares e apresentar elevada resistência a antimicrobianos. Assim meu tema estava definido “RESPOSTA IMUNE à SEPSE POR STAPHYLOCOCCUS AUREUS RESISTENTE A ANTIMICROBIANOS”. Durante esse ano desenvolvi um levantamento bibliográfico sobre o tema em questão, aprendi muito (sei que ainda tenho muito que aprender sobre) e consegui entender o que aconteceu com meu avô. Na ultima quinta-feira, dia 26/10/2017, apresentei meu trabalho no 1º Simpósio de Biologia da PUC-Campinas, 46ª Semana da Biologia e XIV mostra de trabalhos científicos. As áreas de apresentação estavam divididas em trabalhos de biologia molecular, meio ambiente e educação e meu trabalho foi o vencedor do primeiro lugar da área de molecular. A partir daquele dia, ao ver os rostos surpresos da pessoas que viam minha apresentação diante dos dados da SEPSE, até mesmo dos examinadores, eu percebi que meu trabalho passava de ser uma revisão de literatura ou levantamento e passava a ser um canal de conscientização, e isso me deixou tão feliz. Porque como uma examinadora me disse, se você alcançar uma pessoa com esse trabalho e através da conscientização puder fazer a diferença, terá valido totalmente a pena. E hoje eu estou aqui, contando minha história a vocês que são canal para fazer a diferença com relação a SEPSE. Eu quero fazer parte disso, meu sonho é ser médica e eu idealizo um dia poder fazer a diferença como profissional da saúde, mas enquanto isso eu estou a disposição para trabalhar contra a SEPSE. Seja na minha faculdade, universidade, cidade. Eu quero ajudar! Se houver qualquer coisa que eu puder fazer estou inteiramente a disposição.

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