SOBREVIVENTE | Letícia Batista

Sou fisioterapeuta e tenho 23 anos. Tive sepse em fevereiro desse ano, e minha vida se transformou totalmente a partir daquele dia.
Foram 16 dias de tubo, um mês de UTI e 62 dias de internação. Esse depoimento é sobre como foi ter sobrevivido à isso, então tentarei focar no período pós-⁠alta. Acredito que o fato da internação ter sido tão prolongada no final das contas foi algo positivo. Consegui voltar pra casa já caminhando, o que foi uma vitória muito grande pra mim. A dependência para fazer absolutamente todas as necessidades básicas era de longe o meu maior sofrimento e o medo de ficar assim por muito tempo era imenso. Outros grandes medos que tive foi de precisar continuar com as hemodiálises e dos problemas na visão serem irreversíveis. Mas tanto a visão quanto a função renal voltaram ao normal. Ter sobrevivido à sepse mudou completamente a minha forma de viver e de ver a vida. Hoje meus sorrisos são mais fáceis, as coisas parecem fazer mais sentido, os problemas parecem menores e mais simples.. Atualmente minha maior dificuldade é em pensar na questão de voltar à trabalhar no hospital (o mesmo que fiquei internada, mais especificamente). Tenho uma grande preocupação em voltar pro ambiente hospitalar (que sabemos o quanto é contaminado) e acontecer algo denovo. Além disso, carrego um certo trauma dali, onde tantas coisas ruins aconteceram. Por fim, ainda acompanho na Pneumologia e um dos meus pulmões ainda não está 100%.
Fora isso, só restaram as cicatrizes, cicatrizes de sofrimentos mas também de vitórias. Saber que fiquei tão próxima da morte hoje é motivo para viver minha vida de forma mais intensa, a ser uma pessoa melhor, a ter mais amor próprio, a ser mais forte durante as batalhas, a não entregar os pontos nunca, o que passou tanto pela minha cabeça nos momentos de desespero. Hoje eu vejo que valeu a pena cada dor e cada lágrima, tive outra chance de viver. Durante esses 62 dias, passou tantos “finais” pela minha cabeça, alguns trágicos, outros nem tanto. O que eu não imaginava é que o final seria tão feliz como tem sido.

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